Não nos Cancelaremos e Outros Sonhos de Justiça Transformativa da adrienne maree brown

Prefácio 

Esta tradução é fruto de um esforço coletivo de estudo, pesquisa e partilha sobre justiça reparativa e não punitiva, abolicionismo prisional e transfeminismo interseccional.

Há dois anos que a biblioteka juntamente com as Vozes de Dentro, temos lido, debatido e traduzido os seguintes títulos: La trama alternativa. Sogni e pratiche di giustizia trasformativa da Giusi Palomba (2023), We will not cancel us and other dreams of transformative justice da adrienne maree brown (2020), I hope we choose love. A trans girl’s notes from the end of the world da Kai Cheng Thom (2019) e Puta de prisão da Isabel do Carmo e Fernanda Fráguas (1982).

Num cruzamento de sentimentos, feridas e perguntas, a partir da raiva e do desejo de uma alternativa mais justa para todes, escolhemos estas leituras como um caminho de cura e transformação para nos permitir sonhar e resistir juntes.

Queremos divulgar estes conteúdos como ferramentas para que os nosso coletivos — já vulneráveis aos novos processos de fascização em curso não impludam sozinhos, call-out atrás de call-out.

Contraries a todo tipo de punição e tortura praticadas pelo Estado e o sistema prisional, propomos através de esforços coletivos questionar quão enraizadas estão nas nossas sociedades as dinâmicas de opressão, vitimização e cancelamento precipitado, mesmo dentro dos nos nossos próprios círculos, supostamente deconstruídos. Como podemos dispensar da autoridade dentro e fora de nossos corpos, coletivos, comunidades, sociedades? Como praticamos uma justiça que efetivamente repare e transforme sem retro-alimentar a violência?

Precisamos refletir sobre o que sabemos acerca da violência, de como é gerada e fomentada; sobre o quanto a temos simplificado e normalizado; e sobre como, demasiadas vezes, nem sabemos distingui-la de um conflito, de um erro ou de uma divergência. Acreditamos que só se estivermos todes e juntes podemos resistir à instrumentalização dos nossos discursos por quem só quer carregar bandeiras para reforçar a intolerância e as políticas xenófobas, racistas e classistas.

O livro da adrienne maree brown recolhe textos publicados por ela no seu blogue no início de 2020 em plena pandemia da Covid-19. Vale a pena explicitar que a cancel culture no contexto dos EUA é diferente da realidade portuguesa: à partida, um call-out em Portugal terá um menor impacto mediático. Todavia, muitas das motivações e das dinâmicas evidenciadas no livro permanecem presentes, e muitos dos fenómenos descritos são-nos bem familiares. O call-out é uma ferramenta eficaz para denunciar violências graves e abusos de poderes — especialmente quando o dano é causado por alguém ou alguma entidade com muita influencia, ou quando é necessário interromper uma violência de forma imediata. Mas que acontece quando quem causa o dano é uma pessoa companheira?

Este livro aborda precisamente essas situações em que o «cancelamento» não é o caminho e pode tornar-se lesivo. Assim, enquanto nos explica por que razão um cancelamento não implica necessariamente uma mudança, a adrienne maree brown propõe percursos mais construtivos — e mais eficazes a longo prazo — de reparação de danos aí onde claramente uma alter-
nativa reside e deve ser procurada.

Setembro 2025,
com amor,
a biblioteka

Não nos cancelaremos e outros sonhos de justiça transformativa