Alexandra Symeonides pela Biblioteka
O Care Collective nasceu em 2017 como grupo de estudo. Entre os seus membros estão Andreas Chatzidakis, Jamie Hakim, Jo Litter, Catherine Rottenberg e Lynne Segal, todas pessoas ligadas a contextos académicos e de ativismo. Em 2020, escreveram o ensaio chamado The Care Manifesto, uma reflexão criativa sobre o que eles denominaram estado dos cuidados.
Em plena pandemia da Covid, o foco de todes e do coletivo recaiu sobre o funcionamento de infraestruturas como hospitais, lares, creches, serviços de limpeza; sobre a improvisa centralidade de todas as pessoas trabalhadoras nestes setores e sobre o facto de que todes diariamente e em maneiras diferentes precisamos de algum tipo de suporte e/ou assistência. Neste momento, tudo o que é relativo aos cuidados foi patologizado por um lado e capitalizado e privatizado por outro. Para falar nesta ambivalência é preciso pensar que a cura é muitas vezes associada a mansões «inferiores» com as quais não nos queremos confrontar nem no plano psicológico. É a partir de fatores como estes que nasce a interdependência entre cuidados, género, classe e etnia. Quanto à capitalização da cura, é fácil constatar que esta se transformou num privilégio de poucas pessoas, e ao mesmo tempo favoreceu a criação de estagnantes categorias, como quem pode permitir-se contratar alguém para limpar a sua casa, passear o seu cão, fazer-lhe sessões de fisioterapia ao domicílio, tomar conta da sua mãe na cama, e quem destas mansões fez o seu trabalho, embora mal pago.
Então o que se entende com estado dos cuidados? A alternativa anti-racista, transfeminista, ecológica, democrática e sem fronteiras ao estado social ainda escravo de mecanismos paternalistas e de exploração de género, étnico e racial. Um estado cuja conceção de cidadania se baseie na cura e em que esta seja utilizada para modificar atuais e futuras aceções de pertença. Com assentamentos projetados em função das nossas necessidades e não com base no lucro, que recusem qualquer tipo de violência por parte do estado e que ponham no centro da nova política es sujeites historicamente marginalizades.
Como alcançar um tal estado dos cuidados? Entre as soluções e os exemplos fornecidos pelo coletivo têm-se o apoio mútuo, a re-apropriação dos espaços públicos, a partilha de bens e o municipalismo. Por apoio mútuo entende-se todo o espectro das práticas de cooperativismo; algumas destas irão manter o caráter informal, enquanto outras têm que ser geridas por administrações locais e nacionais. Qualquer uma destas atividades precisa de infraestruturas e, neste sentido, é fundamental a reapropriação do espaço público, a sua devolução à comunidade e às suas práticas associativas, que assim favoreçam as interconexões e a vida em comum, e contra a todos os espaços feitos reféns do capital privado. As hortas urbanas são possibilidades para entrar em contacto com a natureza, praticar desporto e encontrarmo-nos no quotidiano. Mas é também preciso pensar em espaços verdes que superem a dimensão humana, como parques que, em lugar de jardins e de vedações, deixem livre o atravessamento da fauna selvática. Também a edilícia poderia beneficiar de uma tal política: cooperativas, habitações coletivas, arquiteturas e projetos criativos que favoreçam as formas de cuidados partilhados.
Es autores trazem o exemplo do Greater London Council (GLC), que entre 1981 e 1986, em completa contratendência, cortou subvenções à «cultura alta» para beneficiar a cultura da comunidade marginalizada. O GLC promoveu festivais de música gratuitos, revistas e organizações feministas (Spare Rib e Southall Black Sisters), rádios comunitárias e assim contribuiu à democratização da atividade cultural e intelectual de Londres. A sua maior intervenção foi a devolução do exclusivo complexo artístico do Southbank Center, hoje Royal Festival Hall, que ainda é um dos poucos espaços públicos fechados de Londres, além de bibliotecas, igrejas e museus, onde é possível estar sem gastar dinheiro. Os espaços devem também ser entendidos como espaços de partilha dos recursos da comunidade. Bibliotecas são o exemplo mais significativo de lugares não mercantilizados e de partilha. Além de permitirem ler uma grande quantidade de livros, as bibliotecas podem ser usadas como sítios que fornecem acesso à internet, lugares de encontro e de aprendizagem. A partilha de bens materiais e não materiais é o caminho até à sustentabilidade ecológica e à colaboração comunitária. Podemos ir além dos livros e pensar em bibliotecas de objetos e em outras formas de reutilizar os bens. Esta prática é uma clara rejeição do sistema capitalista e uma maneira de limitar emissões devidas à produção, de poupar dinheiro e de desenvolver as nossas capacidades de cuidados não só face às pessoas, mas também aos objetos inanimados.
Skoros é o nome de um coletivo anticonsumo de Atenas, em velhos edifícios de vendas ao detalhe eles coordenam empréstimos há mais de dez anos: roupa, livros, jogos, utensílios de cozinha. Outro exemplo de partilha imaterial são as bancas do tempo, onde as pessoas podem trocar o próprio tempo para desenvolver atividades umes para es outres. Quanto ao municipalismo, ou seja, o conjunto de práticas de autogoverno que promovam a constituição de uma riqueza comunitária local, o coletivo reporta-nos exemplos de democracias «de baixo para cima», como o modelo inglês do Preston Council ou do grupo catalão Barcelona en Comú, ambos dedicados à internalização dos serviços público e à construção de formas institucionais e redes que não se baseiam sobre o lucro privado, mas sobre formas sociais de serviços em que es própries utilizadores participem na sua planificação e realização.
Em conclusão, um estado dos cuidados não é uma estrutura vertical e não aponta a incrementar as relações de dependência, nem atua segundo esquemas sancionatórios ou coercitivos e, pelo contrário, está em linha com a justiça social e não penal. O estado dos cuidados insiste para que os nossos bens comuns, online e offline, se tornem instrumentos democráticos, de propriedade pública e coletiva e que sejam geridos em modalidade peer-to-peer. Um estado dos cuidados reconhece a interdependência do humano e do não-humano e exige uma ação conjunta e internacional para lançar um Green New Deal e descarbonizar o planeta. Num estado dos cuidados os confins são porosos e toma-se conta de migrantes e requerentes asilo, em contraste ao neoliberalismo, que tenciona eliminar confins só para privilegiar fluxos de capital. Um estado dos cuidados pratica a «economia dos cuidados», que favorece modalidades de trocas locais, nacionais ou internacionais fundadas sobre solidariedade e formas igualitárias de propriedade, produção e consumo. Como cita o título, este livro não é um manual, mas uma declaração. Algumas das reflexões no texto podem às vezes parecer pouco originais ou ingénuas, a linguagem demasiado académica e os exemplos bastante institucionalizados. Contudo, muitas vezes estas soluções têm a força da simplicidade que nos custaria implementá-las e, potencialmente, a repercussão de um furacão.
https://www.southbankcentre.co.uk/
https://www.bl.uk/spare-rib
https://southallblacksisters.org.uk/
https://www.facebook.com/skoroscc/
https://www.preston.gov.uk/article/1339/What-is-Preston-Model
https://barcelonaencomu.cat/ca/principis
“El Manifiesto de los cuidados”, ou seja, a versão em castelhano deste livro, pode ser pedida em empréstimo à Biblioteka, aberta às terças e quartas-feiras, entre as 16h e as 19h, na Sirigaita, Rua dos Anjos 12/f.

