Giulia Vitini pela Biblioteka
Uma das intenções de Solá ao escrever Canto eu e a montanha dança foi «escolher um pedaço do mundo, tentar compreendê-lo, vivenciá-lo, olhando-o de vários ângulos diferentes»*.
Os Pirinéus Catalães são o sítio escolhido pela autora, encruzilhada de perseguições e julgamentos de bruxaria, acidentes de caça e histórias de guerra, para onde muitas pessoas fugiram após o fracasso da Guerra Civil.
Todos estes elementos se fundem numa única linha narrativa neste cenário rural e milenar que acolhe uma comunidade diversificada, composta por muitos seres ligados entre si e que se alternam, capítulo após capítulo, na narração.
O romance desenvolve-se através deste coro polifónico de vozes, mas não o faz seguindo uma trama real, mas sim estratificando histórias onde a vida quotidiana é contaminada pelo misticismo e vice-versa, e em que a relação ancestral e visceral com a terra, a floresta e a montanha é uma constante comum a todas as personagens do livro.
A ação fica quase em segundo plano face à originalidade da estrutura narrativa em que Solá realiza um notável exercício de imaginação e personificação: nuvens, cogumelos, corços e espíritos minam a perspetiva puramente antropocêntrica, garantindo que o romance se desenvolve de forma horizontal, livre das hierarquias, onde todos os pontos de vista merecem ser ouvidos.
Desde o primeiro capítulo o leitor percebe a mudança de perspetiva: são as nuvens, com a barriga cheia de chuva e vibrando de eletricidade, que contam a morte do agricultor e poeta Domenéc, atingido por um raio.
É a partir deste acontecimento que o fio narrativo se desenrola. As histórias das demais personagens entrelaçam-se com o drama familiar principal, contos narrados por seres humanos como a esposa Sió, obrigada a criar sozinha os irmãos gémeos Hilari e Mia na aldeia de Matavaques; os cônjuges Neus e Prim; mas também por seres mágicos, como as quatro encantadas Joana, Eulália, Dolceta e Margarida que, entre risos e lágrimas, lançam feitiços, fazem poções, dão à luz filhos e provocam chuvas de granizo.
A voz feminina prevalece, é palpável a irmandade e a solidariedade entre mulheres fortes, capazes de encontrar calor num canto sombrio e duro de um mundo que no geral tenta sufocá-las quando se mostram diferentes do padrão, quando não estão dispostas a dobrar-se e adaptar-se às normas sociais em vigor.
A pluralidade de vozes na narrativa é um exemplo de como a coletividade é a pedra angular do romance, de como esta comunidade colorida de montanha é caracterizada por laços intrínsecos e subterrâneos que unem seres humanos, bruxas, espíritos, diabos e animais.
Quanto à prosa, o estilo de Solá é ao mesmo tempo musical e textural.
A poesia transparece pelo tecido narrativo, mostrando o talento da autora também como poetisa, não sendo por acaso que a sua estreia no mundo literário tenha sido com Bèstia, uma coletânea de poemas. É através de frases curtas e do amplo recurso a comparações e metáforas que Solá evoca imagens vívidas e poéticas nas quais a terra e a floresta se refletem; mas também ao nível do conteúdo a dimensão poética é muito forte: Domenéc é descrito pela mulher Sió como um camponês de alma gentil, que declama poemas em voz alta enquanto trabalha; o filho Hilari não pode não ter a poesia no sangue e guarda todas as suas composições na memória, sem as escrever para não as matar, como ele conta no seu capítulo que, não por acaso, se intitula «poesia».
Este poema eu compus para um bom amigo.
Eu olho tudo; os caminhos e as árvores, o céu e o sol, as manhãs e as noites, as pedras e as urtigas, as bostas de vaca e os cumes, e as rochas e as fumaças ao longe e as trilhas de javali… tudo, e vou compondo rimas. Trago a poesia no sangue, eu. E conservo todos os poemas dentro da memória como num gaveteiro bem-arrumado. Sou uma jarra cheia d’água. De água simples como a dos riachos e das fontes. Inclino-me e derramo um jorro de versos. E nunca ponho no papel. Para não matá-los. Porque o papel é água doce do rio que se perde no mar. É o lugar onde fracassam todas as coisas. A poesia tem que ser livre como um rouxinol. Como uma manhã. Como o ar suave do entardecer. Que vai para a França. Ou não. Ou aonde quiser. E também porque não tenho papel nem lápis.
Ao longo da leitura fica a impressão de se estar a ouvir histórias ao invés de lê-las. Talvez esta componente oral seja moldada pelas várias legendas a que Solá recorre frequentemente, mas é um carácter para que a sua escrita fragmentada também contribui.
Nesta peculiar ode aos Pirenéus, onde a Guerra Civil deixou uma marca indelével, Solá presta homenagem à Catalunha rural e mística, fazendo um retrato de todos os elementos que a compõem, mas evidenciando a importância dos laços que os ligam, os seus caracteres efémeros, os seus ciclos, a vida e a morte.
*Entrevista: https://culturificio.org/io-canto-e-la-montagna-balla-una-recensione-e-qualche-domanda-allautrice/
Canto eu e a montanha dança é o segundo romance da artista e escritora catalã Irene Solá (Malla, 1990), vencedor do prémio literário da União Europeia 2020.
Uma cópia do livro Canto eu e a montanha dança, da Irene Solá está disponível para empréstimo na Biblioteka, aberta às terças-feiras entre as 16h e às 19h, na Sirigaita, Rua dos Anjos 12/f.

