Eunice Lemos pela Biblioteka
Em março de 2023 saiu, pela mão das éditions de La Fabrique, o novo livro da politóloga francesa Françoise Vergès, Programme de désordre absolu. Décoloniser le musée. Dada a conhecer aos leitores portugueses como Um Feminismo Decolonial (Orfeu Negro, 2023), traduzido este ano e também disponível na Biblioteca das Insurgentes, Vergès traz-nos agora um ensaio onde remete em causa o modelo do museu ocidental, apelando à invenção de uma outra via que designa por «pós-museu».
Ao longo dos últimos 20 anos temos assistido a múltiplos fenómenos de contestação do museu ocidental; este ensaio leva-nos a descobrir estes movimentos. Entre, por um lado, os pedidos de restituição de objectos pilhados durante a colonização, e, por outro lado, múltiplas acções de activistas denunciando o tipo de empresas que oferecem financiamento a estas instituições, tudo aponta hoje para a necessidade de questionar a forma como elas existem e compactuam com o capitalismo racial ecocida. O exemplo mais utilizado por Vergès é o do museu do Louvre, o museu mais visitado do mundo, e cujo acervo resulta, em parte, da pilhagem de obras de arte durante o império napoleónico. Todos os outros museus europeus se foram construindo com base no modelo do Louvre, que representou, na altura, o símbolo da grandeza e superioridade do império francês.
Neste sentido, Vergès assinala que «os pedidos de restituição de objetos remetem para uma longa história de expropriação, que por sua vez faz eco à extração como lógica do capitalismo racial». Esta aliança entre o museu, a construção simbólica do Estado-nação ocidental e o capitalismo extractivista está, porém, longe de ser apenas histórica, continuando a fazer parte da lógica de funcionamento dos museus. Vergès evoca o facto de que, apesar do relatório Savoy-Sarr de 2018 ter aberto o caminho às restituições, muitas direções de museus dificultam-nas, por exemplo, com o argumento paternalista do «atraso técnico», ou seja, de que os países de origem não reúnem as condições necessárias à conservação de certos objectos, ou de que vão «destruí-los» caso se trate de arte fúnebre. Todos estes argumentos têm implícita uma lógica etnocêntrica segundo a qual os critérios culturais dos outros povos são inferiores aos critérios ocidentais e revelam o medo dos conservadores de que estes pedidos esvaziem os museus e os façam perder o seu prestígio.
A autora evoca também a hierarquia racial, de género e de classe presente nestas instituições, exemplificada nas condições de trabalho das pessoas que efectuam a limpeza e a manutenção destes espaços, que são maioritariamente pessoas racializadas. Nesta linha, Vergès consagra ainda várias páginas à recente construção do Louvre Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, acusando a administração do museu de ter fechado os olhos às chamadas de atenção de diversas ONG’s e coletivos de artistas – Human Rights Watch e Gulf Labor Artist Coalition, por exemplo – acerca das condições de trabalho de milhares de migrantes neste país.
Vergès evoca ainda a parceria entre o Louvre e a petrolífera Total Energie – que financia diversas exposições neste e noutros museus – denunciada pela Greenpeace France em 2021. Além de lavar a sua imagem, para a Total a associação ao Louvre é uma alavanca diplomática que permite ganhar o apoio de certas elites para fazer abrir portas e instalar o seu poder em certos países do Sul global. Ou, por outras palavras, trata-se de usar a cultura como instrumento de soft power, neste caso continuando a explorar recursos africanos através de projectos ecocidas: poder-se-á, a título de exemplo, citar o EACOP, um oleoduto aquecido actualmente em construção e que será, em 2025, o maior do mundo, atravessando zonas naturais protegidas e fontes de água importantes no Uganda, no Quénia e na Tanzânia. A questão do mecenato privado nos museus públicos e na arte de modo geral, através das fundações, é longamente abordada. Vergès vem mostrar-nos de que forma o desinvestimento estatal na cultura abriu portas a que o capitalismo filantrópico se infiltrasse totalmente no mundo das artes, permitindo a grandes empresas e magnatas praticar o artwashing em toda a impunidade, por vezes com benefícios fiscais. Ao aceitarem este tipo de mecenatos, as instituições museológicas fecham os olhos às práticas nefastas de tantas multinacionais, demonstrando de que lado da barricada está o seu engajamento político.
Vergès passa ainda em revista algumas acções levadas a cabo por militantes para denunciar a hipocrisia deste sistema, analisando as acções do grupo norte-americano Decolonize This Place! em diversos museus. Assinala como a estratégia do capitalismo é sempre a da pacificação, ou seja, a de integrar as críticas que lhe são feitas para as enfraquecer. É assim que o antiracismo e o ecologismo liberais vieram a ganhar terreno, manifestando-se por exemplo nas políticas de «inclusão» e «diversidade» que são agora os adágios em voga em todos os países capitalistas. Disso é exemplo a instauração de quotas – oficiais ou oficiosas – para pessoas racializadas e mulheres para cargos de responsabilidade em museus e outras instituições culturais. «O multiculturalismo tornou-se numa ideologia e numa prática de governo em que o Estado se afasta da forma estática monocultural para, assim, disciplinar melhor os subalternos.»
Que soluções? Além das restituições materiais de obras, Vergès evoca também outras formas de reparação que o Ocidente poderia ter em consideração, que têm a ver com as condições materiais de existência dos museus. «A digitalização deveria fazer parte das reparações que o Ocidente deve a estes países», afirma, pensando na economia de extração mineral na RDC que alimenta a tecnologia mundial. Dever-se-ia, pois, começar por questionar «as formas de extração dos materiais que permitem o funcionamento dos museus», e, logo em seguida repensar «a subcontratação de pessoas na segurança e na limpeza, a formação intelectual (…), os financiamentos, o valor da entrada (…) e a história das coleções». A um nível mais abstracto, o museu deveria ser reinventado através de um «programa de desordem absoluta», recorrendo à imaginação e descolonizando a forma de apresentar a arte. Vergès oferece dois exemplos que ela mesma colocou em prática desta tentativa: as visitas guiadas que organizava ao Museu do Louvre, e o projecto de museu que desenvolveu na Ilha da Reunião, o MCUR.
As visitas ao Louvre pretendiam procurar nos quadros de entre os séculos XVI e XIX o que estava ausente, procurar a presença espectral da figura do escravo. Focando-se nos produtos da escravatura, Vergès conduzia os visitantes a observar o açúcar, o tabaco, o café, o algodão, mostrando como estas «representações naturalizaram a escravatura, fazendo dela um sistema de produção como qualquer outro.» O MCUR foi uma tentativa de criar um museu desmaterializado: como criar um museu de um povo sem objectos? Como é que a injunção à representação, típica do neoliberalismo, nos impede de pensar noutras possibilidades? Instalações sonoras com cantos autóctones, várias línguas a ecoar num espaço. «O pós-museu, ainda não sabemos o que será», disse numa entrevista, «é preciso deixar acontecer». O último capítulo, «Epílogo. Tácticas decolonais», deixa algumas pistas e exemplos, apontando para o futuro, relembrando que o que o sistema sempre fez é mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma; para matar este modelo, é necessário construir espaços de liberdade: talvez assim possa surgir um mundo novo.
Uma cópia do livro “Programme de désordre absolu. Décoloniser le musée” da Françoise Vergès está disponível para empréstimo na Biblioteka, aberta às terças-feiras entre as 16h e as 19h, na Sirigaita, Rua dos Anjos 12/f. Refira-se ainda que em setembro de 2023, a brasileira Ubu Editora, traduziu em ebook o livro sob o título “Decolonizar o museu. Programa de desordem absoluta”

