La Trama Alternativa da Giusi Palomba

Alexandra Symeonides pela Biblioteka


Esperamos ansiosos pela chegada em Portugal da tradução do livro “La Trama Alternativa” da Giusi Palomba, cuja primeira edição em italiano é de Março 2023 e foi editada pela Minimum Fax. Neste texto é reportado um processo de reparação coletiva que teve lugar em Barcelona em resposta a um episódio de abuso sexual. Eram os anos em que a Giusi Palomba lá viveu, para a seguir mudar-se para Glasgow onde se formou em justiça transformativa, não punitiva e feminista.

A primeira parte do livro conta a história da chegada de Palomba a Barcelona; dos expats italianos e do coletivo de jornalismo; do seu novo amigo Bernat que a iniciou às realidades alternativas da cidade. Bernat tem muitos contactos entre o movimento associativo de Barcelona, ocupa lugares de poder em alguns destes e é a pessoa que com um par de telefonemas é capaz de arranjar a solução que procuravas. É sempre no coletivo dele que a Giusi e a Sandra finalmente começam a curar uma coluna feminista. Até ao dia em que a realidade se revela diferente do que imaginávamos e Bernat é protagonista de uma denúncia de abuso sexual. A “vítima”, ou  melhor, a “sobrevivente”, como é definida a pessoa que sobreviveu ao abuso, é uma companheira que por ser familiar e já ter tido acesso e informação sobre justiça transformativa, exclui a hipótese de denunciar o fato à polícia. Em resposta, ela pede que Bernat percorra um caminho de consciencialização sobre o acontecimento, sem que este prejudique o seu trabalho ou a sua condição de progenitor monoparental. A primeira reação de Bernat foi de pura negação, que num primeiro momento nem consegue perceber quem fez o exposto, passou algum tempo antes de conseguir reconhecer que a relação sexual que teve com a Mar pouco ou nada teve de consensual.

O processo de reparação começa quando Bernat aceita sujeitar-se ao mesmo e quando Mar começa a perceber o que pode, na prática, efetivamente ajudá-lá neste momento. Entre os pedidos dela vai o de renúncia por parte de Bernat de qualquer cargo de poder nos vários coletivos com os quais está envolvido, isto porque, para Mar, um dos motivos que o levou a agir de maneira tão desproporcional foi o sentido de proteção geral e incondicional que Bernat possui dentro da sua comunidade,

Não só o Bernat e a Mar são seguidos por dois diferentes grupos de apoio, feitos de amigos e pessoas próximas, mas também toda a comunidade que gravita à sua volta e os amigos abalados pelo acontecimento têm acompanhamento e acesso a grupos de interajuda.

O panorama é vasto. De uma lado há obviamente quem considere este processo ser a enésima maneira de justificar uma violência machista, mas é a mesma sobrevivente que na verdade pede a outros grupos feministas para não denunciarem o facto. Claramente, há quem comente: “Até pagamos a terapia ao abusador!”. Mas também existe o espectro oposto, onde está quem ache que, quando a ser promotor de danos e conflitos é uma pessoa da nossa comunidade e para a qual a reparação é possível, a justiça excluente e punitiva nem repara, nem cura, mas só destrói ainda mais e fere a única coisa que neste mundo individualista e capitalista pode promover o nosso bem estar, as nossas comunidades. Neste horizonte, há quem acredite que conflitos ou acontecimentos traumáticos raramente sejam o resultado de um único instante em que as coisas correram de forma errada, mas que tenha mais a ver com saber reconhecer na quotidianidade as pequenas coisas que evitariam o acontecimento ganhar uma proporção maior.

“Como podemos tornar uma pessoa responsável de um erro cometido, e ao mesmo tempo ficar em contacto com a sua humanidade o suficiente para acreditar na sua capacidade de transformar-se?”
É com esta pergunta de Bell Hooks, feita em 1998 a Maya Angelou, que Palomba começa a segunda parte do seu livro. Aqui a autora reflecte sobre uma comunidade vulnerabilizada por uma violência de género e as consequentes diferenças entre um feminismo anti-punitivo e outro de marca neoliberal, onde a outra cara da toma da palavra, muitas vezes consiste em mera cancel culture.
Alguns sentidos da justiça estão tão enraizados na nossa sociedade que parece impossível imaginar a defesa de quem sofre violência ao mesmo tempo que a superação do punitivismo. Por isso a autora não se limita a críticar os métodos punitivos tradicionais e a maneira como estes frequentemente acabam por perpetuar a violência mas também, por meio de muitas referências a livros, ativismos, séries, factos reais, explica-nos a diferença entre uma justiça feminista e uma machista; ou porque não se deveria enfatizar o binómio vítima-agressor, ou como envolver a masculinidade na luta contra a violência de género. Nesta obra Giusi Palomba oferece-nos um conjunto de práticas concretas de justiça transformativa, baseadas em reconhecer problemas internos, promover a responsabilização comunitária e a reforma das relações sociais, sempre reforçando a importância de estruturas comunitárias preparadas para apoiar e sanar.

A última parte do livro desvanece como costumam desvanecer estes episódios nas memórias coletivas. Entre os ganhos positivos desta vivência Palomba lembra-nos dos tantos mundos diferentes dentro do mesmo mundo que vivemos e da importância de perseguir a utopia. Entre os negativos, relata o facto de Bernat acabar sendo efetivamente marginalizado do movimento e de algumas colaborações inter-coletivas acabarem por desaparecer. Também refere como o fim do financiamento fez com que afinal se extinguissem bruscamente todos os grupos de apoio e só se continuaram a sustentar as despesas da terapia de Bernat, terminando de forma brusca todo o processo de reparação. Por estas questões a autora acaba a questionar-se se a transformação foi de facto um sucesso. Uma coisa parece certa: uniformemente distribuída entre o pólo dos que querem segregar um agressor e o oposto, dos que querem ver a uma pessoa passar por um processo de reparação e transformação, estará sempre a dúvida de se o que se está a fazer será a coisa certa. De facto, não nos foram dadas muitas alternativas e só podemos aspirar a construir outras, assumindo o risco, sabendo que o punitivismo em última análise, só alimenta mais prisão, exclusão e tortura.

Não é fácil ler sobre relatos de violências, abusos e de episódios de sexismo mas através dos caminhos que a autora nos leva a percorrer, milhas e milhas além da rota habitual, exploramos novas abordagens e descobrimos que outros caminhos são possíveis. Aqui reside a verdadeira alternativa.

 

Uma cópia do livro “La Trama Alternativa” da Giusi Palomba está disponível para empréstimo na Biblioteka, aberta às terças-feiras entre as 16h e às 19h, na Sirigaita, Rua dos Anjos 12/f.