Teresa Mamede pela Biblioteka
Neste livro-manifesto – Urbanismo Feminista. Por una transformación radical de los espacios de vida – o Col-lectiu Punt 6, uma cooperativa de arquitectas, sociólogas e urbanistas sediadas em Barcelona, desafia-nos a reimaginar o espaço das cidades segundo uma perspectiva feminista.
Partindo de uma tapeçaria que entrelaça várias mulheres com formações diversas, académicas e activistas, de várias partes do mundo, que influenciaram a teoria e a prática do urbanismo feminista e que têm informado e inspirado o seu trabalho, as autoras conduzem-nos na desconstrução do modelo de cidade como o conhecemos e vivemos, desafiando o status quo do planeamento urbano.
Uma cidade dispersa e desconexa. Uma cidade disciplinadora, que repete a constante capitalista de procurar produtos estandardizados, totalizadores, replicáveis até ao infinito, independentemente do contexto social, territorial ou temporal. Uma cidade androcêntrica, que coloca a masculinidade hegemónica no centro de todas as coisas. Uma cidade classista e opressora para mulheres, pessoas queer, racializadas, migrantes, indígenas ou pessoas com diversidade funcional. Uma cidade assente na dicotomia público-privado, que reproduz e reforça hierarquias e desigualdades, decorrentes da divisão sexual do trabalho, em que o público está profundamente ligado ao produtivo e à masculinidade e o privado representa o reprodutivo e o feminino, situando certas experiências e actividades num espaço e excluindo-as de outro. Uma cidade que nos faz sentir deslocadas, no sítio errado, imputando-nos a nossa própria sensação de insegurança.
Para romper com esta visão estandardizada e com a divisão espacial do público e do privado, o urbanismo feminista evita fórmulas mágicas e propõe-se a definir critérios gerais que podem ser adaptados às características e necessidades de cada território e das pessoas que nele vivem. Para tal, utiliza a vida quotidiana como ferramenta de análise do tempo e do espaço e como metodologia de trabalho, o que permite estabelecer uma continuidade entre as diferentes actividades da vida, evidenciar a distribuição desigual de tarefas e responsabilidades em função do género e reflectir sobre a adaptação dos diferentes espaços urbanos às necessidades do dia-a-dia.
Para além de tomar partido do potencial transformador do quotidiano, o urbanismo feminista está assente em dois pilares fundamentais: a integração de uma perspectiva interseccional e a participação activa e transformadora da comunidade nos processos urbanos.
Uma análise interseccional que exponha as interligações entre as múltiplas fontes de opressão é aquela que possibilita a valorização e visibilização da complexidade da vida quotidiana das pessoas num contexto espacial e histórico determinado.
Com uma crítica desde dentro a uma prática profissional muito baseada em conhecimentos técnicos, que criou realidades urbanas com escassas referências às necessidades da maioria da população, a perspectiva apresentada no livro valoriza e incorpora o conhecimento e as experiências das «pessoas comuns», e sobretudo das mulheres, por serem elas as especialistas dos territórios que habitam, graças às suas duplas e triplas jornadas de trabalho.
O reconhecimento do peso desproporcional que o trabalho reprodutivo representa na vida das mulheres e das necessidades que daí decorrem não pode, contudo, perpetuar estereótipos de género que restrinjam as mulheres ao seu papel de cuidadoras. Incluir as mulheres em processos de planeamento urbano participativo implica também reconceptualizar o seu papel na sociedade, transgredindo os papéis heteropatriarcais de género para promover a capacidade de os questionar.
O desenvolvimento de dinâmicas participativas a partir de uma posição transformadora depende de um pluralismo metodológico interdisciplinar e não hierárquico, que rompe com o isolamento a que a arquitectura e o urbanismo têm estado relegados. As autoras propõem metodologias qualitativas inovadoras que permitem traduzir os princípios feministas em acção, colocando a experiência vivida no centro e o corpo como espaço biográfico, de memória, mas também de resistência nas cidades, sobretudo para abordar o tema da violência de género e a percepção de segurança.
A mudança de paradigma proposta em Urbanismo Feminista é a da cidade dos cuidados, baseada na sustentabilidade da vida e em oposição radical ao sistema capitalista e patriarcal. Os espaços que respondem às necessidades da vida quotidiana são aqueles que permitem cuidar de nós mesmas e de outras pessoas, que promovem o apoio mútuo e a solidariedade. Precisamos de cidades que rompam com a responsabilidade individual pelo trabalho reprodutivo para começar a construir formas de responsabilidade colectiva. Uma cidade que priorize as relações comunitárias e a convivência entre as pessoas. Uma cidade que recuse visões homogeneizadoras e que tenha em conta as diferenças entre pessoas de acordo com a pluralidade das suas características, mas também a evolução das suas necessidades ao longo do ciclo de vida e a sua relação com o contexto económico, político e social. Uma cidade que rejeite as lógicas punitivistas para lidar com o conflito e reconheça que relações sociais justas no espaço público só podem ser alcançadas com o reconhecimento das diferentes identidades. Uma cidade que reconheça a função social do espaço público e a proximidade como um direito, já que não é possível planear o espaço em função da vida quotidiana sem ter em conta o tempo finito em que todas as actividades podem acontecer. Uma cidade que incorpora a perspectiva ecofeminista, conjugando as questões da crise ambiental com a crise dos cuidados.
Nesta contranarrativa urbana, que recusa protagonismos individuais e dá palco às experiências de urbanismo feminista comunitárias e colectivas, deixamo-nos inspirar pela imaginação radical que propõe transformar as cidades, para transformar tudo.
Uma cópia do livro Urbanismo Feminista. Por una transformación radical de los espacios de vida, de Col-lectiu Punt 6, está disponível para empréstimo na Biblioteka, aberta às terças-feiras entre as 16h00 e as 19h00, na Sirigaita, Rua dos Anjos 12/f (Lisboa).

